[Sobre Escrita #1] – Começando: A História

Já faz algum tempo que tenho essa vontade de fazer uma série de posts sobre escrita em geral. Entre amigos que escrevem/enrolam/tentam escrever, leitores que pedem dicas e conversas aleatórias, esse é um assunto que sempre surge. E, obviamente, é um assunto que eu adoro.

Uma das minhas metas para esse ano é movimentar este blog. Essa série de posts provavelmente vai ser a única coisa que vou conseguir fazer com uma certa frequência (não estou contando as resenhas de surto), ou seja, oportunidade perfeita.

Antes de começar, quero deixar claro que o material postado vem da minha experiência quebrando cabeça para melhorar meu trabalho desde 2009, quando comecei a pensar na escrita de forma mais séria. É uma coleção de tentativas e erros, métodos que funcionam para mim ou que eu adaptei para funcionarem. Não estou querendo colocar regras na escrita de ninguém, até porque considero que só existe uma regra na escrita: se funciona, faça.

Então vamos lá.


Começando: A História

"Como eu faço para a minha história render?"

Eu perdi as contas de quantas vezes ouvi essa pergunta ou alguma variação dela. E também perdi as contas de quantas vezes dei a mesma resposta: "senta e escreve". Só escrever, sem esperar que fique perfeito, com a consciência de que isso é um rascunho e que você vai voltar e reescrever depois.

Certo, isso não deixa de ser válido, nem que seja só para criar o hábito de escrever sempre, sem ficar esperando aquele raio mítico de inspiração aparecer. Mas quando eu falava isso, eu estava me esquecendo de um detalhe: isso funciona para mim, hoje. Mas nem sempre funcionou.

Eu escrevo desde muito nova e hoje em dia já desenvolvi um "processo" que funciona para mim. Na verdade, isso é algo até recente - coisa dos últimos dois anos e meio, no máximo. Antes disso eu sempre sofria para a história não morrer no meio do caminho, para eu não ficar sem ideias e tudo mais. E, para o caso desse post, vou voltar lá na minha época de colégio, escrevendo feito uma louca o tempo todo.

Escrever sempre foi um vício meu. Passava qualquer tempo livre, mesmo em sala de aula, escrevendo em qualquer pedaço de papel que achasse. Era sempre aquela mesma coisa: nossa, que ideia legal, deixa eu escrever isso. E umas poucas páginas depois, eu estava encarando a folha em branco e pensando "droga, mais uma história que vai para o lixo (mentira, tenho esses começos até hoje). Passei anos escrevendo assim. Fazia começos que nunca iam para lugar nenhum. Podiam ser até interessantes, mas quando passava daquele ponto de "introdução da história", eu travava. Não sabia o que ia fazer. Não sabia para onde a história ia nem nada do tipo. Então deixava o rascunho lá e ia para a próxima ideia. Quem nunca, não é?

Com o tempo, eu acabei aprendendo a só começar a escrever quando já sabia o final da história. Literalmente só sabia isso: como a história ia começar e como ia terminar. Ponto. Era o suficiente. Eu tinha uma direção para seguir. Mesmo que no meio do caminho as histórias tomassem vida própria e fossem para rumos que eu não esperava, era o bastante para sair daquelas primeiras cinco páginas da morte. E assim continuou, até eu me entender com como minha cabeça e minhas ideias funcionam e achar um processo de organização que funcione para mim.

Foi aí que eu percebi que, sim, é importante se planejar, por vários motivos. E o mais óbvio deles é justamente o fato de que, quando você sabe para onde vai, a história rende.


As Travas

Começar a me planejar um pouco e parar para entender como meu processo funcionava me ajudou a perceber quais eram os meus maiores problemas. Acabei chegando em três pontos principais que praticamente sempre acontecem. E, se for levar em conta o pessoal que eu convivo, elas são bem comuns.

A primeira trava, óbvio, é o não conhecer a história. Tem um começo legal, ok, mas muitas vezes o começo nem está ligado para valer com o arco principal da história. É uma cena interessante para chamar atenção e apresentar mundo/personagens antes do arco da história começar a ser trabalhado. Se você não tem esse arco, é óbvio que a história não vai render. E aqui é uma coisa que varia bastante. Às vezes, saber o final da história é o suficiente. Às vezes, saber qual vai ser o primeiro conflito é o suficiente. Depende de história, depende de pessoa. E uma coisa que eu reparei nos últimos meses é que a história pode até render se eu tiver os "picados" assim, mas em algum momento eu com certeza vou travar.

A segunda trava é não conhecer suas personagens. *levantando a mão* Culpada. Eu, pelo menos, sempre tive muito a mentalidade de que as personagens iam se apresentar para mim ao longo da história e que eu precisava esperar para conhecê-las, então é óbvio que não ia começar uma história conhecendo bem minhas personagens, né? Bobagem. Pura bobagem. Personagens não nascem sozinhas, são criadas, mesmo que de forma inconsciente. Na verdade, isso de deixar a personagem se apresentar por conta própria traz outros riscos: o de criar uma personagem genérica ou um espelho do autor. Mas, o que sempre acontece (comigo, pelo menos) é travar horrendamente nas cenas mais emocionais/introspectivas, qualquer coisa que envolva personagens e o que está na cabeça deles, sem nenhum conflito externo envolvido.

A terceira trava é o excesso de ideias. Pois é. Acontece. Eu tenho trocentas mil ideias de coisas que quero que aconteçam na história, com cenas já rascunhadas, referências, diálogos esquematizados porque isso vai ficar muito legal... E aí travo. Porque simplesmente não cabe tudo isso na história. Não dá. Limites são necessários às vezes. Ok, quase sempre. Muitas vezes fico perdida com uma história porque não sei como encaixar tudo o que eu quero que aconteça. Demorou um pouco para eu acostumar a, sempre que isso acontece, parar e começar a fazer a limpa das tretas adicionais.


Organizando a casa

Conhecendo minhas principais travas, eu comecei a procurar formas de dar um jeito nesses problemas desde o começo. Tem gente por aí que é mestre em organização e planejamento - o que definitivamente não é meu caso e da maioria do pessoal que conheço. Sentar e fazer um roteiro detalhado do livros, cena por cena, com divisão de capítulos e tudo certinho, antes de começar a escrever? Não é para mim. Não mesmo. Nem por milagre. Fico batendo a cabeça na parede mas não entendo como alguém consegue fazer isso. E passei muito tempo achando que esse era o ideal se eu queria escrever profissionalmente. Outra ferrada.

A questão é: cada um tem seu processo. Cada um tem que entender sua cabeça, ver o que funciona ou não e, de certa forma, criar o seu método. Entender quais são as suas dificuldades, porque é isso que o bloqueio criativo é: uma dificuldade. É quando você encontra uma parede que não sabe como passar, só isso. Ou seja: estude as paredes e comece a pensar em como se planejar para não dar de cara com elas. Seja esse planejamento fazer um resumão bagunçado da sua história toda, seja sair pregando post-its pela parede/área de trabalho do computador, seja fazer um roteiro mega detalhado, o importante é dar certo para como sua cabeça funciona.

"Ah, mas você vai ficar só nessa de 'pense nas paredes, Thais'? Não exatamente. Tem um método que comecei a usar há pouco tempo e que está funcionando bem demais (para minha surpresa). O próximo post vai ser só sobre planejamento e vou falar bastante dele.

E para os amigos travados... Mais alguém em uma dessas três travas que citei? Ou em alguma outra?

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7 Comments

  1. Thais, quero participar de seu face e blog.
    E também aprender sobre escrita.
    Abraço.
    Tio Márcio Teixeira.

  2. Gaby Fraga disse:

    “Para os amigos travados” oi, eu
    Narrações com a cabeça diferente da sua. Meu deus, que ferrada. Socorro que ferrada, sério, to querendo dar um tiro nessa menina e fugir com o Matt pra só ter que escrever do ponto de vista dele agora

  3. Guilherme Magalhães disse:

    Amei as dicas, e amei mais ainda a apresentação do site. Muito gostoso de se ler, mesmo no celular!
    Uma coisa que dá certo para mim quando eu travo em determinado ponto da história é pular ele e pensar o que vem depois. Normalmente os eventos seguintes acabam dando a resposta que falta!

    • Thais Lopes disse:

      É uma das gambiarras que eu sempre fiz! Acho até que comentei isso com você hahaha Mas achei uns jeitos mais práticos de fazer isso xD

  4. Ultimamente, especialmente com a moda do bullet journal, fiquei fã de analisar meu próprio processo de escrita, e realmente, fazer uma autoanálise ajuda muito! Gosto muito de falar sobre o meu processo de escrita na internet, e adoro ler sobre os dos outros escritores também1 Por isso vou aguardar o seu próximo post da série. Planejamento é uma coisa que me pega. Enquanto eu não consigo seguir sem ele, também tenho certa dificuldade em me manter focada.

    Ah, e adorei saber que a sua série do Ciclo da Morte vai voltar! Li o primeiro volume há um tempo e gostei; certamente vou conferir a nova versão!

    Abraço!

    • Thais Lopes disse:

      Não é? Nossa, cada coisa que a gente descobre quando para pra analisar o processo. Eu peguei umas manias minhas que realmente me assustaram aqui hahahaha
      E é, planejamento é complicado, porque não é só planejar, né. É achar alguma coisa que funciona pra sua cabeça. Tô com a leve impressão que o próximo post vai ser gigantesco MESMO, só falo isso.

      (gente do céu, eu tenho até vergonha quando aparece alguém que leu Ciclo na versão antiga hahahaha mas que bom que gostou!)

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