Nuin

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— Você está melhorando — Niane comentou, olhando de relance para Jiaira.

A outra mulher não estava mais mancando, como quando saíram da arena, mas ainda estava visivelmente irritada. Respirando fundo, Niane se concentrou em manter uma expressão neutra quando Jiaira se virou para ela. Não ia rir.

— Melhorando? Da primeira vez que lutamos eu te derrubei! E agora… — Ela apontou para a perna esquerda.

Niane soltou o ar com força. Nem tinha acertado Jiaira com tanta força assim, tanto que ela já estava andando normalmente. Mas sabia que, se risse, iam começar outra luta, desta vez no meio da rua.

— Da primeira vez que lutamos eu não sabia quem você era e você me pegou de surpresa. — Niane deu de ombros. — Tenho uma boa ideia de como e onde você foi treinada, então consigo deduzir o que vai fazer e como contornar suas defesas.

Jiaira grunhiu uma sequência de palavrões. Desta vez Niane não conseguiu segurar sua risada, e riu ainda mais quando viu as expressões surpresas dos mercenários que estavam na rua.

— Eu devia ter aceitado a oferta de treinar com os Mercenários de Khaver também — Jiaira resmungou.

Niane balançou a cabeça, ainda sorrindo.

— Não ia adiantar.

Jiaira estreitou os olhos e ela deu de ombros de novo. Sim, os Mercenários de Khaver eram um grupo extremamente fechado, mesmo séculos depois que a divisão entre os povos antigos e os seguidores de Táiran desapareceu. Sim, era um grupo de mercenários que só aceitava descendentes dos povos antigos. E ela podia ter se juntado a eles, se quisesse, porque a mãe de criação da sua irmã mais nova tinha sido uma mercenária e ainda era respeitada por eles. Mas Niane não falou nada disto, porque nos meses desde que haviam se conhecido Jiaira sempre fizera questão de não querer saber nada que lhe contasse quem eram os pais de Niane.

— O que você fez, saiu procurando todos que podiam te treinar desde que aprendeu a andar?

Niane levantou as sobrancelhas. Pelo visto Jiaira estava mais irritada do que ela havia pensado.

— Algo assim.

Na verdade, ela não precisara procurar treinamento. Seus pais tinham feito isso, começando a treiná-la assim que Niane mostrou interesse. E, depois disso, a enviaram para ser treinada por amigos e qualquer grupo que pudesse lhe ensinar algo útil. Não era à toa que ela conseguia derrotar qualquer um em Lleenari. Mesmo que alguns mercenários fossem melhores que ela em disciplinas específicas – mestres de verdade – ela era boa o bastante em vários estilos. Era aquilo que fazia a diferença, no fim das contas. Para Niane, era fácil entender os movimentos de um adversário e prever o que ele faria.

Jiaira bufou e não falou mais nada, enquanto continuavam a andar pelas ruas movimentadas do planetoide. Estavam indo para a mesma taverna onde haviam se conhecido, coisa que já se tornara uma tradição depois que treinavam juntas. Também não era incomum Jiaira estar irritada depois de uma sessão, mas não tão irritada. Mesmo assim, Niane sabia que ela estava melhorando.

Desafios eram comuns em Lleenari, como era de se esperar. Em um planetoide de mercenários, aquilo era diversão e uma forma de se impor, definir o status de alguém entre os outros. Isso sem mencionar as apostas. Niane tinha ganhado um bom dinheiro no primeiro mês de Jiaira no planetoide, quando todos pensavam nela como uma novata qualquer. Porém, nos últimos dois meses, ninguém havia desafiado Jiaira. Na verdade, um dos instrutores recusara um desafio dela.

— Se quiser, quando terminar seu treinamento aqui, posso tentar conseguir algo com os keryl para você — Niane falou, por impulso.

Jiaira parou e a encarou. Niane ainda deu alguns passos antes de parar e se virar para a outra mulher, que estava balançando a cabeça devagar.

— O que você quer dizer? — Ela perguntou.

Niane suspirou.

— Treinar com os keryl. Não prometo que vou conseguir, mas se quiser, já que está tão preocupada em ser a melhor, posso tentar.

Quando Jiaira não falou nada, só continuou a encará-la com os olhos arregalados, Niane balançou a cabeça e voltou a andar. Devia ter imaginado que aquela oferta ia ser uma surpresa e tanto para a outra. Os keryl eram os melhores assassinos e espiões de Ionessen, por causa de suas habilidades específicas. Por muito tempo, eles fizeram questão de se isolar e construir seus enclaves nos lugares mais inacessíveis possíveis. Agora, eles eram parte dos tratados de Ionessen e se haviam se tornado mais conhecidos. Mas seus assassinos ainda eram os melhores, e nenhum forasteiro treinava com eles.

Niane fora treinada por eles por causa de seu pai. Antes da guerra que marcou o fim da Segunda Era, ele havia sido o vahra-her, o rei dos keryl. Era esperado que sua filha fosse treinada pelos melhores, mesmo que ele estivesse afastado dos enclaves. E, justamente por isso, Niane sabia que pelo menos considerariam a possibilidade de treinar Jiaira. Por isso e por causa de quem eram os pais da outra mulher, também.

Jiaira a alcançou pouco depois, logo antes de virarem na rua da taverna, que estava lotada. Não que isso fosse algo estranho, mas normalmente não havia grandes grupos fora da porta das lojas. Desta vez, um grupo grande de mercenários estava ao redor de alguma coisa.

As duas se entreolharam e foram direto para o círculo de pessoas.

● ● ●

— Não, verdade!

Jiaira levantou uma sobrancelha e se virou para Niane, que deu de ombros. Nenhuma das duas conhecia aquela voz, mas elas não conheciam ou conviviam com todos de Lleenari. Longe disso.

— O que foi? — Jiaira perguntou, cutucando o mercenário que estava na sua frente, um homem de cabelo escuro preso em várias tranças.

O homem fez um grunhido e se virou para ela.

— O novato fora de época está contando histórias.

Um novato fora de época? As duas se entreolharam de novo. Não tinham ficado sabendo daquilo. Quem vinha para Lleenari, era porque queria os melhores contratos de trabalhos para mercenários. Mas, antes de poderem fazer isso, todos precisavam ser testados, treinados, e então enviados em uma missão que servia para dizer se estavam no nível esperado dos mercenários de Lleenari. Tinham uma reputação a manter, no fim das contas. E qualquer um com contato entre os círculos de mercenários sabia exatamente as épocas em que as turmas de novatos eram formadas para serem treinados. Quem chegava fora de época se virava como podia, sozinho.

Normalmente, os novatos fora de época eram aqueles que nem precisavam realmente estar ali. Niane tinha chegado ali fora de época. Jiaira fizera questão de pegar uma das turmas – não queria chamar atenção.

Mas, pela voz do mercenário, o novato estava contando algo absurdo. Fazia sentido, na verdade, se ela levasse em conta quantas pessoas estavam ali.

— Verdade, sim. Antiga história. Mas verdade.

Jiaira franziu a testa. Ou o novato tinha uma forma bem peculiar de falar, ou não dominava a língua comum da região. Pelo seu sotaque carregado – e estranho – ela apostaria na segunda opção.

Niane empurrou o mercenário que havia respondido para o lado e entrou no meio do círculo de pessoas. Jiaira suspirou e a acompanhou, se espremendo entre os mercenários. Devia ter imaginado que uma “história antiga” ia chamar a atenção de Niane.

Não demorou muito para estarem encarando dois homens no centro do círculo. Um deles era um dos treinadores mais antigos de Lleenari, um dos mercenários que havia se “aposentado” e que agora mantinha a ordem no planetoide. O outro era desconhecido – obviamente o novato: alto, esguio apesar dos músculos que ela conseguia ver nos seus braços cobertos de tatuagens de símbolos estranhos, com cabelo escuro na altura do ombro e olhos tão escuros que por um momento ela pensou que fossem completamente negros. Ele estava vestido como a maioria dos mercenários ali, em roupas escuras e confortáveis, de material resistente, mas mesmo assim não parecia ser parte daquele lugar.

— Que história? — Niane perguntou.

O treinador olhou para ela rapidamente antes de assentir. Jiaira sorriu. Ser amiga de Niane tinha suas vantagens. Se ela tivesse feito aquela pergunta no mesmo tom, a resposta provavelmente seria o começo de uma briga.

O novato balançou a cabeça.

— Não acreditar em mim.

Niane sorriu. De repente, os mercenários ao redor deles se afastaram. Certo, aquilo era uma surpresa. Ela sempre se interessava por histórias antigas, mas era a primeira vez que Jiaira via aquele sorriso sem ser em uma luta.

E era impressão sua, ou a sombra do homem estava mais escura e maior do que deveria estar? Jiaira estreitou os olhos, encarando o chão. Por que estava com aquela impressão?

— Que história? — Niane repetiu.

Definitivamente a sombra estava mais escura. E estava se movendo discretamente, ficando maior e se aproximando de onde elas estavam.

— Eles perguntam de onde vir — o novato falou. — E eu digo. Outro mundo. Longe… Fora daqui.

Jiaira franziu a testa. Ele vinha de outro mundo, longe dali? Isso não era motivo para alguém não acreditar no que o novato falava. Todos eles vinham de outros planetas. Mesmo que a maioria fosse daquela região, alguns deles eram de muito longe.

— Eu também sou de outro mundo, muito longe daqui — Niane falou. — Todos são de outros mundos.

O novato balançou a cabeça, parecendo irritado. Não, Jiaira notou. Não irritado. Frustrado. E as sombras continuavam crescendo e ficando mais escuras. Já estavam quase nos pés de Niane.

— Não. Outro mundo. Não planeta. Mundo.

Os comentários dos mercenários recomeçaram, mas Jiaira viu como Niane tinha ficado imóvel, completamente concentrada nas palavras do novato. E ele também notou, porque continuou.

— Uma mulher visitou. Para… aprender as fendas.

— Fendas?

O novato estreitou os olhos, encarando Niane dos pés à cabeça. Mas ela estava falando sério. Jiaira conhecia aquele tom. Só não entendia como ela podia estar levando aquilo a sério, se é que estava entendendo alguma coisa. Outro mundo, não outro planeta? Aquilo não fazia sentido.

— Fendas. Dobras. Espaço fora do espaço.

Niane inclinou a cabeça para o lado e Jiaira deu um passo para trás. Conhecia aquele movimento. E as sombras já estavam debaixo de Niane. Sombras que não eram a sua sombra.

— Você conhece o nome de quem ensinou isso para a mulher?

O novato encarou Niane por alguns segundos. Só então Jiaira notou que os mercenários estavam ficando em silêncio de novo. Não que aquilo fosse surpreendente. Se Niane estava levando o que ele dizia a sério…

— Mehara.

● ● ●

Mehara. Niane engoliu em seco e puxou o novato pelo braço, ignorando completamente as sombras que se mexiam de forma nem um pouco natural. Ela teve a impressão de ver um fio de sombra subir na direção da sua mão antes de cair, mas nada daquilo a surpreendia. Não depois do que o novato havia dito.

E agora até mesmo a forma como ele não dominava uma das línguas mais comuns de Ionessen fazia sentido.

— Quem é o responsável pelo seu treinamento?

O novato balançou a cabeça, mas um dos mercenários já estava se adiantando.

— Ele está na triagem, Niane. Não sabemos se ele entende o suficiente das línguas comuns para ser ensinado.

Niane encarou o novato de cima a baixo, parando nas tatuagens estranhas nos seus braços. Ela nunca tinha visto símbolos como aqueles antes, mas quase podia sentir que não eram apenas linhas – havia um significado maior ali.

— Ele vai aprender.

O mercenário assentiu antes de se afastar, mas ele foi o único. Com um ruído irritado, Niane puxou o novato pelo braço de novo antes de se virar. Jiaira estava parada atrás dela, com aquela expressão de quando não estava entendendo alguma coisa e fazendo um esforço para continuar sem entender.

— Vamos precisar daquela cerveja.

Jiaira assentiu e começou a passar entre os mercenários que ainda estavam ao redor deles. Niane bufou, a acompanhando e ainda puxando o novato. Ela até estaria preocupada com como ele estava indo atrás dela sem reagir – uma atitude dessas não era bom sinal em um mercenário – mas ainda estava vendo as sombras se movendo de forma estranha pelo chão. Aquilo não era algo que ela já houvesse visto ou ouvido falar… O que só servia para confirmar as palavras dele.

Mehara.

Ela tinha precisado de anos – séculos – para descobrir aquele nome. Anos e mais anos revirando bibliotecas antigas, indo atrás de histórias e dos menores detalhes possíveis que alguém pudesse se lembrar. E, agora, ali estava alguém que vinha daquele mesmo mundo e que conhecia aquele nome.

Quando ela entrou na taverna, ainda puxando o novato, Jiaira já estava inclinada sobre o balcão, falando com o dono enquanto apontava para uma mesa bem no fundo do lugar. Niane sorriu, indo para a tal mesa. Jiaira provavelmente estava avisando que queriam privacidade, além de pegar as bebidas.

Ela se sentou e apontou para a cadeira da frente, levantando as sobrancelhas para o novato. E agora eram as sombras das mesas se movendo…

— Mantenha suas sombras sob controle — ela murmurou, seca.

O novato sorriu.

— Elas estão.

Então ele estava fazendo aquilo de propósito. Nenhum problema, de acordo com Niane. Exceto pelo fato de que as sombras eram algo novo e desconhecido em Ionessen.

— Então pare de se exibir.

Ele estreitou os olhos e Niane viu as sombras mais escuras cercando sua cadeira. Se ele queria um desafio, que fosse.

Niane deixou seu braço direito cair ao seu lado, com a mão apontando para baixo. Sabia que as sombras estavam se levantando, quase tocando sua pele. E ela deixou um pulso do seu poder escapar, o brilho avermelhado se espalhando num pequeno círculo ao redor deles.

As sombras recuaram e o novato fez uma careta, mas as sombras continuaram imóveis. Sombras naturais.

Jiaira colocou três canecas de cerveja na mesa e se sentou ao lado de Niane, sem dizer nada. O novato as encarou enquanto tomavam um gole, antes de se virarem para ele quase ao mesmo tempo.

— Qual é o seu nome?

— Nuin.

Outro detalhe que comprovava o que ele falara. Aquela não era uma palavra vinda de Ionessen. Niane balançou a cabeça, olhando de relance para Jiaira. A outra mercenária sempre tinha feito questão de ignorar os detalhes ao seu redor, mas daquela vez não teria como fazer isto.

— Nuin… — ela repetiu, ainda pensando no que ia fazer. Mas não tinha outra opção. — O nome Táiran quer dizer alguma coisa para você? Dane’en Táiran?

Ele se inclinou para trás de uma vez.

— A mulher. A visitante.

Niane assentiu.

A visitante. A mulher que tinha, de alguma forma, saído de Ionessen, eras atrás, em busca do conhecimento de outro lugar. As fendas, como Nuin as chamou. A forma de tirar algo da própria fábrica do universo e o colocar num espaço entre. O que Dane’en Táiran havia feito com um planeta habitado pelos keryl, no auge da guerra. E Nuin vinha daquele mesmo lugar, possivelmente tinha aquele tipo de conhecimento.

Niane respirou fundo.

— Eu posso te ensinar o que precisa para ficar aqui, se é isso o que quer. Mas as sombras, a história de Dane’en Táiran ou de Mehara, tudo isso precisa ser um segredo.

Nuin estreitou os olhos e sorriu, cruzando os braços.

— E se não quiser? O segredo. Não me interessa.

E as sombras estavam se aproximando de novo, subindo pelas pernas das cadeiras. Não. Ela não ia permitir aquilo. O risco era grande demais.

— Eu sou do sangue de Táiran. Não me desafie.

O novato se inclinou para a frente, apoiando os cotovelos na mesa, e Niane teve a impressão de que as tatuagens nos seus braços estavam se movendo.

— E eu sou do sangue de Aven.

Jiaira suspirou e bateu sua caneca de cerveja na mesa, com força.

— Já vi que vocês vão ser ótimos amigos, se não se matarem antes.

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