Tyhai – Capítulo Dois


Tyhai - Capítulo Dois

AZOR

A humana na muralha me encarou. A luz fraca da lua das águas refletiu em algo na sua mão — provavelmente uma faca. Era o tipo de arma que eu já tinha visto ela usar várias vezes antes, tanto naquela ilha-montanha nove anos atrás, quanto em vários dos nossos ataques que não haviam terminado tão bem.

Ela olhou para baixo de novo, para a haste cravada logo abaixo da muralha que os humanos tanto prezavam, e de volta para mim. Aquilo era um aviso claro: as tochas dos humanos não haviam sido suficientes para nos parar quando tentaram construir uma segunda cidade no litoral, depois de nos trair. Não seriam o suficiente agora, não importava quantas vezes ela acendesse as fileiras de tochas cravadas fundo na areia da praia. Mesmo quando as chamas brilhavam com o tom vermelho que todos os kelam sabiam reconhecer como um aviso, era uma ameaça vazia.

— Eles não vão fazer nada — Teang falou, parado pouco atrás de mim.

Não iam. Os humanos nunca faziam nada, não de noite. Eles só se escondiam por trás das suas muralhas e do fogo vermelho e agiam como se fossem as vítimas. Como se não tivessem nos expulsado da cidade que havíamos ajudado a construir e nos caçado. Como se não continuassem nos caçando, agora às escondidas.

— Você poderia ter atingido a humana — ele continuou. — Deveria ter acertado. Feito pelo menos um deles…

— Não serviria de nada — falei. — Matar um deles é a mesma coisa que nada. Os humanos não se importam uns com os outros como nós.

Tanto não se importavam que eu havia visto eles comemorarem o resultado dos ataques contra nós mais de uma vez. As perdas sempre eram mais altas entre os humanos, e eles ainda comemoravam. Ainda usavam as mesmas estratégias, sem se importar com as vidas dos seus que seriam sacrificadas.

Eles continuavam se recusando a negociar, mesmo sabendo que o tempo estava acabando.

— Nós podemos… — Teang começou.

— Não — interrompi. — Nosso aviso já foi dado. Os humanos sabem o tempo que têm.

O kelam ao meu lado não respondeu, mas enfiou as garras com tanta força numa árvore que ouvi a madeira estalando.

— Um dardo… — ele insistiu.

Olhei para ele. Teang era um dos kelam que tinha pernas, como os humanos, mas também tinha a pele verde-clara, que era uma das cores comuns entre nós, assim como garras, membranas entre os dedos e guelras. O tubo usado para atirar dardos estava apertado com força na sua mão, e sua lança ainda estava presa na faixa de tecido atravessada no seu torso.

Não falei mais nada. Já tinha dado minhas ordens.

Teang abaixou a cabeça.

— Entendido, Majestade.

Encarei a humana na muralha de novo, sem responder. Eu nunca havia pedido a formalidade vinda dos outros kelam — muito pelo contrário. A rainha antes de mim gostava das suas tradições e protocolos. Agora, o que restava deles era só em memória dela, porque só eram usados quando se lembravam de quem eu era.

Mas eu entendia muito bem a vontade de atacar.

Fazia pouco mais de dez anos desde que havíamos notado que estávamos sendo caçados de novo, mas dessa vez os humanos foram discretos sobre isso. Por mais que tivéssemos a nossa cidade, tanto a parte que estava fundo sob as águas quanto a parte ancorada na superfície, não estávamos sempre no mesmo lugar. Tínhamos aqueles que viajavam por semanas, sozinhos ou em grupos pequenos, antes de voltarem para a cidade. Tínhamos nossos barcos, com sua tripulação tanto acima da superfície quanto sob a água, que se afastavam em busca dos mercadores em suas rotas de comércio entre os reinos do norte e do leste e as ilhas maiores a oeste de nós.

Então demoramos a notar que alguns dos kelam não eram vistos fazia tempo demais. Mais do que seria normal, se estivessem viajando. Ainda assim… talvez tivessem saído junto com algum dos barcos. Era o mais provável, porque não era possível que alguém houvesse simplesmente desaparecido.

Quando todos os barcos estavam de volta na cidade, tivemos a confirmação. Vários kelam não estavam em lugar nenhum. E a única coisa em comum entre todos eles era o costume de se afastarem sozinhos ou em grupos pequenos.

Alvos fáceis para os humanos, que eram nossos inimigos desde a noite do sangue. Eles agiam como se os únicos ataques fossem quando queriam avançar pelas partes do mar que não pertenciam mais a eles, e então nos capturavam aos poucos e envenenavam o mar ao redor do nosso território lentamente, o tempo todo agindo como se fôssemos nós os atacando sem motivos.

Nossa rainha e seus companheiros haviam desaparecido pouco depois de notarmos que estávamos sendo caçados. Ninguém nunca havia descoberto como ou pelo menos onde eles estavam: um dia eles se afastaram da cidade submersa e nunca mais voltaram. A única coisa que Enesa — a rainha — me dissera antes disso era que tínhamos problemas maiores do que pensávamos e ela faria o que precisasse para lidar com isso.

Qualquer que fosse o seu plano, não tinha sido o suficiente.

Alguns dos kelam ainda acreditavam que ela estava viva e era prisioneira em algum lugar. Eu duvidava. Se Enesa estivesse viva, já teria encontrado uma forma de nos avisar. E eu saberia — tinha sido treinado por ela, afinal. Esse era o motivo para eu ter feito questão de assumir a coroa, mesmo com mais três kelam a disputando. Se ela estivesse viva, teria seu trono quando escapasse ou a encontrássemos. Se não estivesse, o que Enesa havia passado décadas lutando para manter não se desfaria.

O ruído de folhas sendo amassadas foi meu aviso de que mais um dos kelam com pernas estava se aproximando.

— O grupo secundário está pedindo permissão para destruir parte das plantações — Lassir falou.

Anos atrás, quando eu dera o aviso de que os humanos teriam até a próxima noite sem lua para libertar todos os kelam, não imaginava que estaria tão certo sobre a época que escolhera. Não era só Teang quem queria atacar os humanos de qualquer forma. Isso estava se tornando a maior vontade de uma parte considerável dos kelam.

Nós não faríamos isso. Não seríamos como eles. Não sacrificaríamos os nossos por uma vitória vazia e não destruiríamos o próprio mundo ao nosso redor para atingi-los.

— Nenhum ataque — repeti as ordens que havia dado antes de sairmos do mar. — Os grupos secundários estão aqui para procurar algum sinal dos desaparecidos e mais nada. Quando atacarmos, não vai ser com o tipo de tática que eles usam.

Não. Quando atacássemos, seria para lembrar os humanos do que acontecera quando pensaram que poderiam nos trair, no passado.

Lassir fez um som baixo, mas não se afastou.

Continuei no mesmo lugar, sem me virar. Tanto ela quanto Teang tinham suas ordens — assim como todos os kelam que estavam na ilha agora. Alguns estariam danificando as canoas dos pescadores, como sempre fazíamos nas noites escuras. Vários outros estavam como eu, parados ao longo da muralha, como um lembrete para os humanos de que estávamos aqui e não havíamos nos esquecido do nosso passado ou do prazo que eles tinham. Mas a maioria dos kelam que vieram à superfície nesta noite estaria se espalhando pela ilha, nas partes mais afastadas da praia, onde era arriscado demais irmos.

Eu não tinha esperanças de que fôssemos encontrar alguma coisa. Os humanos sabiam o que estavam fazendo, desde o começo. Eles haviam organizado uma operação impecável, que não deixava nenhum sinal de quando ou como levavam os kelam. Mas continuaríamos procurando, porque sabíamos que o preço de um ataque direto seria a morte de todos os capturados.

Um dos sinos da cidade tocou. A humana na muralha se virou de lado e então me encarou de novo, ainda segurando sua faca. Ela não iria dar as costas para um kelam nem mesmo para verificar um dos avisos da sua cidade.

Mas ela havia dado as costas para um kelam antes: nove anos atrás, quando estava fugindo de um kelam pela praia de uma ilha-montanha, só para ser alcançada já no mar… E então se virar para enfrentar um dos nossos melhores guerreiros, sozinha e armada apenas com uma faca — a mesma faca que agora estava presa ao lado do meu corpo, na mesma faixa de tecido reforçado que prendia minha lança.

Eu e os que estavam comigo havíamos assistido enquanto Tehat — o kelam que eu estava ali para desafiar — a prendia nos seus tentáculos. A humana já estava sangrando antes, enquanto corria pela areia. Era óbvio que não teria nenhuma chance contra um dos nossos e muito menos contra aquele kelam. Nós podíamos esperar.

Ao invés de uma morte rápida, o que vimos foi Tehat soltar a humana, gritando enquanto um dos seus tentáculos afundava, cortado, e seu sangue se espalhava pela água.

A humana havia escapado na direção de um barco que estava se aproximando, e eu havia terminado o que ela começara. A cabeça de Tehat em uma lança cravada na areia havia sido aviso suficiente para seus seguidores voltarem para a cidade e me aceitarem como o novo rei.

Ela era um risco. Esse era o motivo para eu sempre voltar para onde ela estava na muralha, nas noites escuras. A única humana que havia enfrentado um dos nossos e sobrevivido, desde a noite do sangue. E a humana que, de certa forma, havia me ajudado a tomar a coroa.

Quando chegasse a hora, sua morte seria rápida — e não seria à distância. Era o mínimo que podia fazer. Até então, eu observava. O tempo estava correndo e parecia que os humanos já haviam tomado sua decisão.


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