Tyhai - Capítulo Um
Ainda era cedo demais para os sinos estarem soando, mas não tinha como confundir o som deles com outra coisa.
Comecei a correr pela trilha, ignorando os galhos das árvores batendo nos meus braços e pernas. Não importava. Uns poucos cortes seriam o menor dos meus problemas se ficasse para fora depois que o portão se fechasse. Eu não teria a menor chance se estivesse aqui fora.
Saí do meio das árvores, ainda correndo enquanto subia o caminho que levava até a muralha. Aqui, só crescia o mato baixo. Qualquer coisa um pouco mais alta era arrancada, para não ter a menor chance de alguém se aproximar sem ser visto. E, agora, isso queria dizer que eu podia subir pelo caminho mais direto, praticamente escalando a montanha, ao invés de seguir a trilha e suas voltas.
Duas pessoas passaram correndo pela trilha, logo acima de onde eu estava. Dois dos pescadores. Eles eram os únicos que corriam o risco de demorar tanto para voltar para a cidade. Eles e eu.
Me puxei de volta para a trilha, agora já perto da muralha. O portão principal estava quase fechado, com só uma passagem pequena ainda aberta. Alguém gritou um aviso para esperarem. Acelerei ainda mais, correndo com a cabeça baixa. Existia uma chance de que só estivessem mantendo o portão aberto porque não sabiam que era eu quem estava ali, então não ia arriscar.
Passei pela entrada depressa, sem olhar para os lados. O portão seria fechado e depois travado com quatro placas grossas de madeira reforçada com metal. Mas ele não era uma garantia de segurança sozinho.
Subi uma das escadas apoiadas na muralha, até o topo dela. O espaço ali não era largo: mal o suficiente para duas pessoas lado a lado, com uma parede baixa de cada um dos lados, que era a única proteção que tínhamos. Mas era o bastante. Se precisássemos de mais do que uma parede baixa seria porque as defesas já haviam falhado. E eu era parte dessas defesas.
Segui depressa pelo alto da muralha, me desviando com cuidado das outras pessoas que já estavam ali, cada uma responsável por uma área pequena. Nosso trabalho não era lutar. Era avisar quando os monstros se aproximassem. Quando, não se.
Parei entre dois dos suportes de tochas, ainda apagadas. A lua das águas já estava no céu, como um crescente fino, mas sua luz azulada não era o suficiente para iluminar a floresta. Não a parte que importava: algo se movendo entre as árvores, seguindo as trilhas que sempre tentávamos esconder e vindo na direção da cidade. Do alto da muralha, as folhas balançavam gentilmente com o vento da noite e mais nada. Bem mais à frente, as ondas fracas refletiam o luar.
As ondas refletiam só o luar. Não havia nenhum sinal da luz das tochas que eu havia acendido ao longo da praia, logo antes de voltar para a cidade.
Um arrepio me atravessou. Não era difícil imaginar quando elas haviam apagado: logo antes de os sinos começarem a soar. Elas haviam sido o aviso de que seríamos atacados.
Não que precisássemos de um aviso em uma noite assim.
Apoiei as mãos na mureta à minha frente. Eu era quem acendia as tochas na praia, sempre. Era a última a voltar para a cidade todos os dias, mas principalmente quando sabíamos que teríamos uma das noites escuras, quando só uma das três luas estaria no céu.
Isso queria dizer que, enquanto eu estava acendendo as tochas cedo, os kelam já estavam mais perto do que o esperado. Era possível que já estivessem me rastreando entre as árvores quando ouvi os sinos e comecei a correr.
Um dia, eles me alcançariam. Ou em uma noite como essa ou no mar, em algum dia que estivesse de vigia para os pescadores, afastada demais dos outros. Era inevitável. E, quando isso acontecesse, eu levaria pelo menos um deles comigo. Porque, se não tinha a menor chance de sobreviver — não enfrentando monstros sem nada de humano — então faria eles pagarem, pelo menos.
O barulho dos sinos parou e até o silêncio parecia pesado. Não se ouvia nada vindo da cidade: nenhum dos sons das pessoas conversando nas grandes casas, ou alguém tocando os tambores de forma distraída enquanto as crianças brincavam pelos corredores. O mais provável era que as casas mais perto da muralha estivessem vazias, com todas as pessoas se reunindo nas construções centrais, onde a madeira das paredes era reforçada e as portas tinham travas de metal. Se o pior acontecesse, lá era onde teriam uma chance maior de sobreviver.
Respirei fundo e apertei o cabo da faca enfiada no meu cinto.
Ninguém sabia o que eles eram ou de onde haviam surgido — os kelam. Monstros que pareciam ser parte humanos, se é que eu podia chamar algo deles de humano. Os que caçavam os pescadores no mar tinham caudas, como peixes gigantes, e conseguiam se movimentar numa velocidade que deveria ser impossível. Isso, junto com suas garras, dentes afiados e as armadilhas colocadas no mar, era o suficiente para nos prender na ilha. Por isso tínhamos pessoas como eu, que acompanhavam os pescadores em uma canoa separada, para ficar mais afastados, observando e esperando para dar o aviso quando os kelam se aproximassem.
Se fossem só eles, eu não estaria na muralha agora. Os kelam com cauda não conseguiam se mover em terra, então não saíam do mar. Mas os outros, os que tinham tentáculos no lugar de caudas e os que poderiam ser confundidos com humanos em uma noite escura… Esses eram um perigo, porque não tinham nenhum problema em estar em terra. E eles não se contentavam só com as armadilhas que os do mar usavam. Eles carregavam armas: facas afiadas o suficiente para cortar até mesmo ossos, lanças curtas que podiam ser usadas entre as árvores e dardos manchados com venenos que ninguém aqui conhecia. Nem aqui, nem em nenhuma das outras ilhas.
Eles eram o motivo para a cidade velha, na beira do mar, ter sido abandonada décadas atrás. As paredes de pedra ainda estavam lá, restos de um tipo de construção que fazia tempo demais que havia sido deixada de lado, também.
E foi por causa deles que todas as cidades das ilhas se tornaram muradas, fazendo o que podiam para se defenderem, com as pessoas se trancando por trás das muralhas assim que anoitecia. Mesmo que, na maioria das noites, a luz das luas fosse o suficiente para manter os kelam afastados, ninguém estava disposto a arriscar. Todos conheciam as histórias de acampamentos de pescadores destruídos, manchados de sangue e sem nenhum sinal dos corpos de quem deveria estar ali. E eu não conseguia me esquecer da última vez que isso havia acontecido, cerca de onze anos atrás, quando meus pais foram pegos em um ataque dos monstros.
Um sino soou, de novo. Em algum lugar ao longo da muralha, os kelam haviam sido vistos.
Nada. Eu continuava não vendo nada nessa direção. As folhas das árvores seguiam balançando com o vento fresco da noite e… A floresta também estava silenciosa — quase tão silenciosa quanto a cidade. Não havia nenhum sinal de movimento, nenhum ruído além do som fraco e distante das ondas.
Eles estavam perto.
A luz do fogo brilhou, amarela demais contra o azulado do luar fraco, vinda da esquerda, do setor da muralha antes do meu.
Acendi as três tochas da minha área depressa e parei entre duas delas. À direita, a próxima pessoa na muralha já estava acendendo suas tochas, também. Em questão de instantes, a muralha era uma linha de luz. Nossa proteção, de acordo com o decano e os mestres. Seres da escuridão não conseguiriam se aproximar da luz do fogo — da mesma forma que não conseguiam sair das profundezas quando pelo menos duas das luas estavam brilhando no céu.
Eu tinha minhas dúvidas de que o fogo servisse como qualquer tipo de proteção real. Se os kelam realmente não conseguissem se aproximar da luz, as tochas na praia seriam o suficiente para pará-los. Então, ou a única coisa que os afetava era a luz das luas, ou nenhuma luz importava e o motivo para só virem para a superfície nas noites escuras era outro.
Mas eu não ia falar nada sobre isso. Não quando sabia muito bem que a maior parte da cidade só estava esperando um deslize meu para terminar o que haviam começado nove anos atrás. Se preferiam acreditar no fogo… eles que ficassem com suas ilusões.
Em algum lugar à esquerda, uma das tochas brilhou mais forte, com as chamas subindo em um tom vermelho vivo e profundo que não era natural. Mais alguém havia visto um dos monstros.
Eu já tinha ouvido explicações demais para os kelam não avançarem mais na direção da cidade. Algumas pessoas diziam que era porque eles não conseguiam. Mesmo que a cidade não estivesse tão longe da praia, eles eram criaturas do mar. Quando estavam em terra, não sabiam se localizar e se perdiam entre as árvores. Era por isso que sempre fazíamos questão de esconder as trilhas na floresta quando a luz das luas começava a ficar fraca: para que demorassem mais a achar o caminho até aqui e não tivessem tempo de um ataque real antes do amanhecer.
Mentira — ou ilusão, também. Nove anos atrás, eu havia visto os kelam se movendo entre as poucas árvores da ilha-montanha para onde eu tinha sido levada. Ainda tinha a cicatriz de onde a faca de um deles me cortara e não tinha me esquecido da sensação dos tentáculos de outro deles se fechando ao meu redor.
Eles não tinham nenhum problema para se localizar em terra — da mesma forma que não tinham nenhum problema com a luz das tochas. Tudo isso eram histórias que os mestres contavam para que as pessoas não entrassem em pânico.
Não. Os kelam só não subiam até a cidade porque não queriam. Se eles quisessem, já teriam escalado a muralha. Se quisessem, já teriam feito aqui o que as histórias diziam que acontecera na cidade velha. Teriam trazido seus monstros, as criaturas gigantes chamadas de krakens, e coberto as ruas com o nosso sangue.
E algo estava se movendo entre as árvores. Não era uma forma definida, era apenas uma impressão de movimento, de algo mais escuro entre as sombras fracas… Até essa impressão se transformar em tentáculos.
Enfiei a mão na bolsa de tecido presa no meu cinto e joguei o pó que estava ali primeiro na tocha da minha esquerda, depois na da direita. As chamas ficaram mais altas, brilhando em um tom vermelho que mal parecia real.
Um kelam saiu do meio das árvores, só o suficiente para eu notar uma silhueta humanoide logo acima dos tentáculos.
Apoiei as mãos na mureta à minha frente, o encarando. Estava escuro demais para conseguir ver qualquer tipo de detalhe, mas eu não precisava de detalhes. Saber que era um dos monstros ali era o suficiente. Ele provavelmente era um dos que já tinha visto antes, quando estava de vigia no mar. A diferença era que aqui, em terra, ele não teria coragem de atacar.
Não. Os monstros eram covardes. Eles envenenavam o mar ao nosso redor, afastando os cardumes que sempre haviam sido a base da nossa sobrevivência. Eles caçavam os pescadores, que precisavam ir cada vez mais longe para conseguir o mínimo para a cidade. Isso era o que os kelam faziam.
Eles nos atacavam no mar, onde estavam mais fortes e tinham certeza de que não teríamos a menor chance de escapar. Quando alcançavam um de nós ainda na água, a pessoa já sabia que estava morta. Mas, em terra, eles atacavam de noite, escondidos pela escuridão, porque não tinham as vantagens de quando estavam no mar. A terra era nosso território.
Então eles não atacavam. Eles faziam isso: nos cercavam e nos observavam, em um embate silencioso que duraria o restante da noite. E então os kelam iriam embora, sem ter feito nada.
Nada, a não ser aumentar o medo constante. Aumentar a tensão que já era visível nas linhas dos rostos de todo mundo aqui.
Puxei minha faca e a girei na mão, ainda encarando a criatura entre as árvores. O kelam estava parado, com os tentáculos enrolados no tronco delas. Ele podia subir pelas árvores, se quisesse. Não faria diferença. Ele ainda estaria longe da muralha.
E estava longe demais para eu pensar na possibilidade de arremessar a faca… Não que acreditasse que isso pudesse dar algum resultado.
O kelam levantou algo comprido — comprido demais para ser uma lança. E, mesmo que fosse, o vento constante era uma garantia de que nada que fosse arremessado dessa distância chegaria na muralha.
Ele virou o que quer que tivesse nas mãos e arremessou. A haste se afundou na encosta da montanha, próximo da muralha, me deixando ver que era um suporte de tocha que parecia ser um dos que nós usávamos.
Um arrepio me atravessou. Eu tinha sido a última a entrar na cidade porque estava acendendo as tochas na praia. E agora um dos kelam estava parado na frente da área da muralha que era minha responsabilidade, jogando um dos suportes com força o suficiente para cravá-lo na montanha.
Ou era uma coincidência enorme ou esse kelam sabia que eu era a responsável pelas tochas e estava me ameaçando.
Bati a parte plana da lâmina da minha faca na beirada do muro, ainda encarando a criatura. As sombras sobre a muralha se enrolaram na arma por um instante, antes de voltarem para sua posição natural.
Sim. Eu esperava que fosse uma ameaça. Eu podia estar ao lado do fogo, agora, mas tinha crescido como uma seguidora da Senhora da Noite. A escuridão não me assustava — nem os monstros que a usavam para se esconder.
