AEdL – Capítulo Um

Sumário

AEdL - Capítulo Um

Começar o dia servindo de isca para uma criatura na floresta não estava nos meus planos.

Um galho quebrou atrás de mim com um estalo alto. O som de folhas sendo esmagadas e galhos pequenos sendo quebrados ficou mais alto. O que quer que a criatura fosse, era grande. Eu não tinha parado para olhar. Só tinha passado perto o suficiente para chamar atenção dela e corrido para o meio das árvores – seguindo minhas ordens e mais nada. Não era uma mercenária. Não era louca a ponto de ficar por perto para dar uma olhada melhor.

Mas minhas ordens diziam que teria mercenários logo atrás de mim, prontos para emboscarem a criatura. Eu só não tinha visto nenhum sinal deles.

Eu estava ficando velha demais para isso.

Passei por baixo de um galho grosso e continuei correndo. O dia hoje deveria ser só de organizar o carregamento de ervas que tinha chegado na loja, mais nada. Ao invés disso, estava correndo na floresta com uma criatura que eu não sabia nem o que era atrás de mim.

E ela estava chegando mais perto.

Onde os mercenários estavam?

Um assobio agudo cortou a floresta. Finalmente.

Me joguei no espaço estreito entre os troncos de duas árvores e parei, com as costas contra uma delas.

A árvore balançou com força: a criatura tinha batido nela pelo outro lado. Um dos mercenários gritou alguma coisa, rindo. Loucos, todos eles. O som de metal batendo em rocha se espalhou e um galho caiu, mais para o lado.

Rocha? Era uma criatura de rocha? A gente não tinha nada parecido com isso por aqui.

A criatura urrou – um som que era uma mistura de um grito com o som de pedras raspando uma na outra, mas oco, de alguma forma.

Outra criatura respondeu.

Merda. Merda.

Alguém gritou alguma coisa sobre usar machados ao invés de desperdiçar flechas.

O som de galhos se quebrando ficou forte de novo e agora estava vindo da minha frente.

— Nara, corre! — alguém gritou.

Eu já estava correndo – de volta na direção da cidade, agora. Minhas ordens tinham sido para levar a criatura para longe da muralha, mas isso tinha sido com uma só. Duas…

Os mercenários não iam ter me mandado correr se tivessem pessoal por perto para lidar com a segunda criatura.

Desviei das árvores, mal vendo o que estava fazendo. Eu conhecia essa floresta como a palma da minha mão, sabia exatamente por onde podia ou não passar e o que estaria no meu caminho. Mas não importava quanto eu conhecesse ou se estava correndo o mais depressa que conseguia, porque uma criatura que tinha o dobro do meu tamanho sempre ia ser mais rápida.

Rocha. Se a criatura era feita de rocha, minhas facas não adiantariam de nada. Nem para tentar ganhar tempo.

As folhas logo acima de mim balançaram com força.

Me joguei no chão e rolei para o lado. Um punho de pedra desceu exatamente onde eu estava antes. Um galho caiu, mais para o lado.

Não. Não mesmo.

Me levantei e voltei a correr. Eu não ia morrer aqui. De jeito nenhum. Mesmo que tivesse uma criatura gigante que parecia ser feita de pedra clara atrás de mim. Eu tinha visto o suficiente: uma forma quase humanoide, com uma cabeça pequena demais para o corpo e quatro braços compridos e finos – se bem que fino era relativo. O punho que tinha batido no chão era bem maior que a minha cabeça.

Algo estalou, alto. Um galho sendo quebrado, e um dos grandes. As folhas das árvores balançaram com força de novo.

Me joguei para o lado.

O ar desapareceu. Minhas costas bateram no tronco de uma das árvores. Tudo ao meu redor rodou por um instante.

E a criatura estava vindo na minha direção, segurando um galho quebrado e o passando na sua frente como se fosse um bastão.

Filha da puta. Eu tinha tentado desviar do seu punho e ela tinha me acertado com o galho. E ia me acertar de novo se eu tentasse correr.

Puxei minha faca. Ela não ia fazer diferença nenhuma mesmo se eu conseguisse me aproximar. Mas eu ia tentar.

A criatura urrou.

Algo rosnou.

Os cabelos da minha nuca arrepiaram. Isso tinha sido uma ameaça e um desafio claros o suficiente para fazer até a criatura de rocha parar.

Não tinha nenhum animal grande nessa floresta. Nada que faria esse som.

A criatura deu mais um passo na minha direção.

Uma sombra mais escura apareceu do meio das árvores e se jogou na criatura.

Não era um animal. O que quer que aquilo fosse, era grande demais, mesmo que fosse coberto de pelos cinzentos. Um dos monstros que apareciam nas florestas de tempo em tempo?

Não importava. Era só mais um problema para os mercenários da cidade resolverem, não para mim.

Me levantei devagar, ainda com a faca na mão. A última coisa que queria era chamar a atenção do monstro. Ele estava fazendo um ótimo trabalho mantendo a criatura ocupada. Isso não deveria ser possível, mas tinha arranhões fundos em um dos braços da criatura de rocha. O que quer que esse monstro fosse, suas garras eram fortes o suficiente para rasgar a rocha. A mesma rocha que não tinha cedido com as armas comuns dos mercenários.

A criatura urrou. Um dos seus braços caiu no chão.

Rocha. Só rocha, sem nenhum sinal de algo vivo. O que quer que ela fosse, tinha sido criada com magia.

A criatura se jogou na direção de uma das árvores. O monstro a soltou um instante antes de ser esmagado e parou, rosnando. A criatura se virou e urrou de novo.

O monstro não era tão grande quanto a criatura de rocha, mas não estava recuando. E a criatura tinha buracos fundos no pedaço de rocha que era seu “peito”.

Não ia adiantar. Criaturas criadas por magia não tinham coração.

A criatura avançou. O monstro se inclinou para a frente, com os braços abertos, mostrando as garras.

Ah, não.

Eu não podia só voltar para a cidade agora.

O monstro saltou na criatura de novo. Mais pedaços de rocha caíram no chão.

Me afastei para o lado. Eu precisava ter certeza.

O monstro rosnou de novo. A criatura se virou, tentando puxá-lo com dois dos braços, enquanto o outro ainda estava segurando o galho quebrado.

O monstro soltou o peito da criatura e subiu para os seus ombros.

Um lobisomem. Merda.

O que um deles estava fazendo aqui?

Apertei minha faca com mais força ainda. Sem chances de voltar para a cidade. Mesmo que esse lobisomem estivesse atacando a criatura, um deles não deveria estar tão para o sul. Os clãs deles eram do norte e normalmente não se misturavam. Os que eram encontrados fora dos clãs quase sempre haviam perdido qualquer resto de humanidade.

Se ele se transformasse em humano de novo e entrasse em Azamar, ninguém suspeitaria que tínhamos um lobisomem na cidade. Eu ia ter que esperar – e torcer para ele se transformar quando terminasse com a criatura, porque era óbvio quem ia ganhar essa luta.

A criatura agarrou o lobisomem de novo. Ele se virou, deixando um tufo de pelos entre os dedos de rocha. Dois golpes, e uma parte de outro braço da criatura caía no chão.

As cicatrizes finas nos meus braços arderam. Eu nunca tinha precisado enfrentar um lobisomem antes, mas no mínimo conseguiria me defender. Ia doer, mas conseguiria. Era melhor que deixar um dos sem controle entrar na cidade.

O lobisomem arrancou a “cabeça” da criatura. Ela desabou de uma vez, só uma pilha de rocha clara no chão da floresta.

Simples assim. Alguns minutos, e o lobisomem tinha destruído sozinho uma das criaturas.

Se fosse possível se tornar um lobisomem, mercenários demais estariam indo atrás disso, só para ter esse tipo de força. Mas, apesar das histórias que existiam nos reinos mais para o sul, os lobisomens nasciam assim – da mesma forma como a maioria dos usuários de magia já nascia com suas habilidades.

O lobisomem rosnou para a pilha de rocha no chão.

Ele era grande – quase um metro mais alto que eu, provavelmente. Eu não era baixa, mas minha cabeça mal daria na altura do seu peito. Suas costas eram puro músculo por baixo dos pelos cinzentos e seus braços pareciam grandes demais e mais musculosos do que deveria ser possível, terminando em garras escuras.

O lobisomem se virou. Apertei minha faca de novo. Seu focinho era de um lobo, se esse lobo tivesse evoluído para ser um predador muito mais agressivo. E seus olhos eram verdes.

Não.

Eu só tinha visto esse tom verde claro e vivo em uma pessoa antes. Uma pessoa que estava morta.

Não. Eu estava vendo coisas.

O lobisomem farejou o ar e veio na minha direção.

Era a mesma forma de andar – de se mover. A mesma.

Não era possível. Não tinha como…

O lobisomem parou.

— Não fuja.

Era a voz de Malric – e ao mesmo tempo não era, porque tinha o tom rouco e animalesco do lobisomem. Mas era ele.

Malric, que tinha morrido em uma missão com os mercenários seis anos atrás. Malric, que havia sido pego em uma explosão, junto com mais dois dos mercenários da cidade. Malric, que era o homem que eu nunca tinha conseguido superar, mesmo depois de seis anos.

Apertei o cabo da minha faca com força.

— Nara… Não fuja.

Se eu fugisse agora, logo depois de ele ter destruído a criatura, o instinto do lobisomem seria me caçar.

Não importava. Se era Malric aqui…

— Não vou fugir.

Ele parou na minha frente.

Péssima ideia. Agora eu estava presa entre o tronco da árvore e o monstro. Malric.

O lobisomem me encarou. De perto, ele parecia maior ainda. Eu estava certa: minha cabeça mal dava no seu peito. Eu precisava olhar para cima para o encarar… E dar de cara com presas grandes o suficiente para matarem um desavisado com uma mordida, sem a menor dificuldade.

Ele fez um som grave e seus pelos se moveram com um vento que eu não conseguia sentir, antes de começarem a diminuir – a desaparecer. O focinho encolheu na direção do rosto, as garras diminuíram e o monstro agora não parecia mais tão alto. Nem parecia um monstro.

Segundos. Só alguns segundos, e era Malric na minha frente, me encarando com o mesmo rosto que era tão familiar. Era o mesmo cabelo escuro e os olhos claros sob as sobrancelhas pesadas, mesmo que a barba curta fosse nova. Os mesmos brincos de argola nas duas orelhas. O mesmo sorriso que eu tinha visto todo dia por quatro anos. Ele estava vivo. Seis anos depois e ele estava vivo.

Malric colocou uma mão no meu rosto.

— Minha.

Não. Não mais.

Mas eu não conseguia me afastar.

— Você estava morto — comecei.

Malric balançou a cabeça de um lado para o outro e apertou o corpo contra o meu.

Era ele ali. Realmente ele. Com mais músculos do que quando ele tinha saído da minha casa para ir para aquela missão, mas a sensação do seu corpo contra o meu ainda era exatamente a mesma coisa. Eu ainda me moldava a ele como se esse fosse o meu lugar.

E ainda queria arrancar as roupas dele quando sentia sua ereção – que parecia maior do que eu me lembrava.

— Minha — ele repetiu. — Me deixe…

Ele segurou minha nuca e me beijou.

Me agarrei em Malric. A sensação da boca dele na minha era familiar demais e era como água no deserto. Eu queria mais. Precisava de mais de um jeito que sempre tinha me assustado, porque tudo de Malric não era o suficiente para mim. Eu sempre queria mais.

Mordi seu lábio. Ele rosnou, com o som vibrando de um jeito que não era humano, e passou a língua pelos meus lábios com força. Abri a boca, só o suficiente para ele me invadir. E então eu estava sendo consumida pelo gosto de Malric, pela sua língua me explorando enquanto ele segurava minha cabeça e apertava seu corpo contra o meu.

Me segurei com mais força nele e passei uma perna ao redor do seu quadril. A sensação do seu pau contra mim, separado da minha pele só por umas poucas camadas de tecido, era tudo o que eu precisava agora. Isso e a sua boca na minha. A forma quase desesperada que Malric me segurava, me devorava.

Ele segurou minha bunda e me puxou ainda mais contra a sua ereção. Gemi contra a sua boca. Sim. Exatamente isso, exatamente assim.

Malric rosnou de novo e soltou minha cabeça, sem parar de me beijar. Sua mão foi para a abertura na lateral da minha saia e então mais para dentro, até que eu estava sentindo o calor dos seus dedos na minha virilha.

Os mesmos dedos que minutos atrás eram garras e que estavam destruindo a criatura de pedra.

Malric afastou a cabeça e me encarou.

Me apertei contra ele.

— Agora. Mais.

Ele me beijou de novo. Sua mão desceu, quente demais contra minha pele, com a segurança de quem sabia muito bem o que estava fazendo. Dois dedos passaram pela minha entrada e subiram, molhados. Era óbvio que estavam molhados, porque eu já estava ensopada desde que Malric havia me beijado.

Ele rosnou, sem parar de me beijar. Agarrei seu cabelo curto. A sensação da barba contra meu rosto era nova e não era ruim. Mas a melhor sensação era os dedos dele passando pelo meu clitóris, um de cada lado, apertando antes de fazer um vai e vem rápido. Arqueei as costas. Não tinha como me colar mais a ele. Não se quisesse os dedos dele ali.

Gemi alto quando ele apertou meu clitóris de novo – e mais alto ainda quando os dedos desceram e entraram em mim.

Sim. Exatamente assim. Malric se lembrava. E estava curvando os dedos dentro de mim, os movendo para frente e para trás no mesmo ponto, ao invés de ficar só entrando e saindo.

Eu não ia durar.

Eu não queria durar.

Puxei seu cabelo. Malric deu uma risada baixa e me empurrou contra a árvore atrás de mim, me beijando como se sua vida dependesse disso enquanto movia os dedos. Depressa, sempre depressa. Sempre no mesmo lugar. E agora ele tinha o dedão no meu clitóris também.

Todo o meu corpo ficou tenso por um instante e então eu estava gozando – depressa demais, com força demais, me apertando ao redor dos dedos de Malric, que ainda estavam se movendo no mesmo lugar dentro de mim. Enfiei as unhas no ombro dele, me segurando enquanto tremia e sabia que não ia conseguir ficar de pé sozinha.

Sim. Isso era certo. Isso era como deveria ter sido todos esses anos. Isso…

Malric afastou a cabeça de mim, só para abaixá-la logo depois e beijar meu pescoço. Um arrepio me atravessou. Ele falou alguma coisa, baixo demais para eu entender. E ele estava tirando os dedos de mim devagar. Devagar demais.

Gemi de novo, me apertando ao redor dos dedos dele. Não era justo que só ele conseguisse tirar esse tipo de reação de mim.

Seis anos. Seis anos, e nunca tinha sido assim com ninguém.

Malric me encarou. Seus olhos estavam brilhando de um jeito que não era humano e ele estava olhando para mim como se eu fosse a coisa mais importante do mundo.

— Exatamente como eu me lembrava.

Um arrepio me atravessou. Isso não tinha sido a voz dele. Não completamente.

Malric me soltou devagar. Continuei apoiada na árvore. O que tinha acontecido aqui…

Eu não me arrependia. Nunca me arrependeria. Mas…

Ele levantou a mão e chupou dois dedos – os mesmos dedos que estavam dentro de mim.

Isso não deveria ser tão erótico. E não deveria me fazer querer arrancar a calça dele aqui, no meio das árvores, e mandar ele me foder de verdade.

Os olhos de Malric brilharam ainda mais.

— Minha.

Segurei o cós da sua calça. Ele riu de um jeito que era mais lobo que humano.

Eu não deveria estar fazendo isso.

Um assobio baixo fez eu me virar. Dois mercenários saíram do meio das árvores, na direção de onde eu tinha vindo. Keval e Orren.

Malric ficou tenso de uma vez.

— Estamos interrompendo alguma coisa? — Keval perguntou.

— De forma alguma — falei. — Eu só…

Malric ainda estava parado na minha frente, de costas para os mercenários e respirando fundo.

Lobisomem. Seis anos.

Ele não queria ser visto.

— Só estava apreciando a paisagem — completei.

Orren – o maior dos dois – parou na frente da pilha de rocha clara que tinha sido a criatura.

— Na minha época isso tinha outro nome — ele falou.

Segurei o ombro de Malric. Essa tensão era um problema.

— E imagino que o nome seja “descobrir de onde essas criaturas vieram”, porque eu estou voltando para a cidade — avisei. — Para mim, já deu.

Os dois mercenários riram e encararam as costas de Malric.

— Vai arrumar alguma coisa mais confortável que uma árvore, vai — Keval completou.

Ri e puxei Malric para o meio das árvores. Orren ainda falou alguma coisa ser um absurdo eu estar me divertindo enquanto eles iam ter que limpar restos de criaturas mágicas, mas não respondi.

Malric continuou tenso até estarmos longe dos mercenários, quase saindo do meio das árvores.

Lobisomem. Ele era um lobisomem.

Não, isso era o de menos. Ele estava vivo. E estava bem.

E tinha passado seis anos sem mandar um aviso que fosse.

— Nara… — ele começou.

O lobo ainda estava na voz dele.

Encarei Malric.

— Se quiser desaparecer de novo, essa é a hora — avisei.

Ele sorriu.

Golpe baixo. Baixíssimo.

— O que eu quero é alguma coisa mais confortável que uma árvore.

Sumário

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